Oie pessoal, tudo certinho ? Eu sou a Seis Souza, e essa é a segunda news da semanas, se você não viu a última é pq não está inscrito, se inscreveeee! É fixo as quintas, mas as vezes nos empolgamos e dividimos mais. Hoje temos uma entrevista potente com a Lia Àdùní, curadoria de dois filmes bonitões e um pouco dos serviços do Maru.
Best Trick: quando ocupar o território também é escrever uma história
O que faz um evento de skate ser também uma ação de produção cultural? O que um muro, um texto e uma oficina têm em comum? Talvez a resposta esteja em Duque de Caxias, onde Lia Àdùní reúne esporte, arte urbana, música e economia local para pensar outras formas de ocupar o território.
Escritora de superfícies, educadora e produtora cultural, Lia constrói uma trajetória em que palavras, cidade e coletividade caminham juntas. À frente de iniciativas como a Reú Delas e agora do Best Trick, ela aposta na cultura como ferramenta de permanência e transformação.
Nesta conversa, falamos sobre produção cultural na Baixada, mulheres na arte urbana, escrita, território e os desafios de fazer acontecer onde tantas vezes faltam investimentos, mas nunca faltam pessoas dispostas a construir.
O SKATETRASHDAY nasce em Duque de Caxias reunindo skate, brechó, música e oficinas. O que faz você acreditar que um evento como esse precisa acontecer no território, e não em outro lugar?
R: O SKATETRASHDAY é uma resposta mais do que emergente a várias situações que a gente vê na produção cultural como um todo. Uma delas é a questão dos recursos. Assim como o skate é um equipamento caro de se ter, uma câmera é, uma lata de spray também é. Então, a gente tem que fazer o que a nossa cultura faz de melhor: horizontalizar. Tipo assim, criar possibilidades para que outras pessoas, de todas as idades, possam usufruir de uma situação, de uma experiência, de um momento que, muitas vezes, elas não têm recurso para acessar. Outra coisa é descentralizar. É uma resposta também a esse lugar em que a gente vê os eventos de skate concentrados em determinados lugares, pensando só em “profissionais”, em grandes estruturas, em coisas “gigantes”. E a gente esquece que, como tantas outras vertentes, o skate vem da rua, sabe? A gente precisa ter esse espaço representado. Eu acho que os skatistas da Baixada, para além de técnica, pulsa um estilo e uma vivência única. E eu acho que a gente quer colocar esses pontos no mapa, tá ligado?
Você transita entre produção cultural, arte-educação, graffiti e a construção da Reú Delas. Quando você olha para esses projetos, existe um mesmo desejo que atravessa todos eles?
R: O meu desejo é simples: quero criar espaços seguros de expressão para os meus. Eu quero que outras mulheres e pessoas da comunidade LGBTQI+ possam se sentir seguros em fazer seus roles, principalmente as novas gerações. Quero criar e ampliar mais possibilidades de rede, de ação e reivindicar o espaço “público”, que é uma sensação que eu não tive. Mas outras mulheres, nesse movimento de resistência, nesses pequenos lugares, criaram essa possibilidade para mim. Como uma pessoa que vem do candomblé, eu também quero passar isso para frente. Não pode morrer em mim o que elas provocaram. Não pode acabar aqui. Além disso, acho que é nesse lugar que a indignação me move bastante. É uma força que me empurra. Porque, se estivesse tudo lindo, se estivesse tudo ok, acho que a gente só estaria usufruindo, sabe? Mas a gente faz não só pelo desejo, como também pela necessidade. Porque ainda é necessário.
Sua pesquisa fala sobre linguagem, liberdade e os corpos que ocupam a cidade. Você costuma dizer que é uma "escritora de superfícies". Como nasce uma palavra que vai para o muro? E o que muda quando essa mesma escrita encontra o papel?
R: Essa pergunta é muito complexa. Vou tentar respondê-la por alguns caminhos. Primeiro, acho que a gente não pode associar esse "nascer" da palavra a um brotar neutro ou ingênuo. A palavra sempre carrega uma vestimenta, que depende do contexto, de quem fala, de onde fala e por que fala. Na minha perspectiva, a palavra nasce de uma necessidade. Por exemplo, hoje a gente tem a palavra scroll, que surgiu para nomear o ato de rolar o feed dos aplicativos. Ela foi criada a partir de uma nova necessidade de denominar uma experiência inédita. E beleza, zero rebuliço. Mas, quando vemos corpos dissidentes reivindicando seus pronomes, que também são palavras, isso se transforma em uma grande questão. O que nos faz pensar qual papel da linguagem, e às vezes, caímos no limbo de como se elas nos dominassem e imobilizassem. E é justamente por isso que é importante entender que a palavra é uma ferramenta, que também influímos sobre elas. Criando assim, uma relação. Todo mundo produz discursos. As palavras vêm de muitos lugares: da igreja, da família, dos amigos. Estamos o tempo inteiro atravessados por diferentes discursos e, muitas vezes, usamos a mesma palavra com sentidos completamente distintos. Se a gente pensar, por exemplo, na palavra "mulher", ela é a mesma do ponto de vista da estrutura da língua. Mas, dependendo de onde ela é dita, seja numa conversa entre amigos, dentro de uma igreja ou em qualquer outro contexto, ela ganha uma roupagem diferente. Acho que isso também responde à forma como a palavra se transforma, a depender da superfície. Ela não se transforma apenas quando é escrita no papel, pintada numa parede ou pronunciada em voz alta. Ela se transforma a partir de quem a endereçamos, o que revela o caráter essencialmente interativo da linguagem. Para mim, a magia da escrita na rua está justamente aí. Eu quero que minhas ouvintes leiam minhas palavras, bebam essas palavras e as carreguem para casa. Que, a partir disso, elas se inspirem, pintem quadros, tirem fotos, sorriam com suas mães, tias, primas e amigas. Isso vai fazer com que minha palavra não se perca no vento. Ela vai permanecer por um tempo na parede, mas vai ecoar e produzir sentidos inesgotáveis para elas.
Produzir cultura na Baixada exige criatividade, articulação e muita insistência. Na sua visão, o que ainda falta para que produtoras e produtores culturais dos próprios territórios consigam realizar seus projetos com mais continuidade?
R: Eu acho que a produção cultural está vivendo um momento muito bom. Falo a partir da minha experiência. Comecei a produzir com 14 anos, correndo atrás de som para roda cultural, organizando festa de família, fazendo resenha (gente alguém lembra das resenhas?…..). A gente esquece que isso também é produção cultural. Às vezes, parece que esse nome bonito só existe quando está ligado a uma formação técnica, mas esses saberes já nos atravessam há muito tempo. Naquela época, eu não tinha dimensão do que a produção cultural poderia ser. Nem sabia o que era um edital, por exemplo, porque tudo era muito na raça. Quando a gente começa a conhecer essas possibilidades, amplia os horizontes, conhece pessoas e percebe que existe todo um universo em torno disso, a parada muda né? Ao mesmo tempo, principalmente olhando para o contexto político brasileiro atual, acho muito importante que mais pessoas estejam conseguindo acessar os editais. Isso é um avanço. Só que também percebo uma consequência que antes eu não via tanto: a gente está cada vez mais competitivo. Acho que isso tem muito a ver com a lógica neoliberal, mas começamos a enxergar nossos pares como concorrentes de edital, apenas. E isso é muito complicado. Não vou então ir pelo caminho de “precisamos de mais políticas públicas”, porque isso é o mínimo, é o básico. O que eu acho urgente é que a gente se reconecte. É disso que mais precisamos agora. Muitas vezes, o recurso está nas pessoas ao nosso redor. Um amigo tem um equipamento de som, outro conhece um fotógrafo. E não estou falando de precarizar o trabalho de ninguém. Estou falando de construir relações de troca, de perguntar: "Você quer somar?”, “Eu quero.” Então bora!". Acho que, neste momento, a gente precisa voltar a olhar para esse lugar da coletividade. E com o coração. Sem só pensar em tirar proveito e pensar “isso vai ficar ótimo no meu portfólio”.
A Reú Delas nasceu para fortalecer mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ na arte urbana. Ainda hoje, ocupar esses espaços é um gesto político? Como você enxerga o papel das mulheres na produção cultural e na construção das cidades?
R: É o que eu sempre falo: quando uma mulher pega um pincel, um microfone, uma lata ou qualquer outra ferramenta, o caminho entre ela e a finalização desse processo, seja um quadro, um muro ou qualquer outra obra, é enorme. Então, quando ela consegue concluir esse processo, esse caminho se encurta. Principalmente porque esses resultados reverberam para outras mulheres. Essa resistência é essencial, sobretudo por isso. Esses espaços foram construídos historicamente para corpos heteronormativos. O ambiente de trabalho, o espaço público, os espaços fora de casa já foram pensados a partir dessa lógica. Então, quando a gente ocupa esses lugares, esse gesto se torna um duplo ato de resistência: por nós e pelas que vêm depois. As minhas antepassadas construíram todo um caminho para que eu pudesse estar onde estou hoje. Então, essa é a principal importância para mim: a transmissão de saberes. Além disso, quando mulheres criam espaços, eventos e outras iniciativas, elas pensam a partir das nossas necessidades. Isso, para mim, é essencial. Quando eu vou a um mutirão organizado por uma mulher, ela me busca na porta, procura saber como eu estou. Existe um cuidado que a gente dificilmente encontra em outros espaços. Acho que é por aí.
6. Se alguém chegar ao SKATETRASH sem conhecer seu trabalho, qual experiência você espera que essa pessoa leve para casa quando o evento terminar?
R: “Eu quero o próximo!”. Acho que quando a gente tem uma experiência positiva, anseia pela próxima. A gente quer sentir de novo aquela dopamina, sabe? Então, o que eu quero é que, independentemente de quem seja e de como chegue, essa pessoa seja acolhida, curta o evento da melhor forma possível, se sinta em casa. É isso. Até porque a gente não permite nenhum tipo de vacilação.
Você costuma trabalhar a partir da escuta dos territórios. O que a rua continua te ensinando que nenhuma universidade consegue ensinar?
R: Olha, eu acho que a rua ensina em uma dimensão da experiência física e mental. O que você experiencia com o seu corpo não está descolado da sua mente. Isso é muito louco, porque, quando você está sentado em uma aula na universidade, você está de corpo presente, mas o seu corpo está em um estado de repouso, enquanto faz um exercício mental mais intenso. Já quando você experiencia a rua, essas duas dimensões não se separam. E isso é muito importante para mim. Conseguir experienciar as coisas de corpo e alma.
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QUILOMBO DE BONGABA: An Afro-Brazilian Resistance Community for Societal Renewal
Liderado por sua inspiradora presidente e líder espiritual, Babalorisa Pai Paulo de Ogun, o Quilombo de Bongaba, em Magé, Brasil, é um espaço fascinante que busca resgatar, ressignificar, revitalizar e empoderar... quilombolas, rompendo com as barreiras cognitivas que antes nos diziam a que lugar pertencíamos. Estamos nos conectando com a liberdade que nos garante o direito de escolher e ocupar o lugar onde queremos estar." Em 13 de maio de 2025, dia em que o Brasil comemora a Abolição da Escravatura, o Quilombo de Bongaba foi homenageado como um Lar para a Humanidade. Saiba mais:
https://www.quilomboquilomba.com.br
Tem um Quilombo No Quintal de Casa - Seis Souza
No coração da Baixada Fluminense, o quilombo não é apenas uma memória – é presença, resistência e identidade viva. Tem um Quilombo no Quintal de Casa Mergulhador na história do Quilombo de Bongaba para revelar como a luta quilombola segue pulsando no presente. Através do encontro de três histórias, o documentário escuta aqueles que fazem da ancestralidade um caminho de mobilização e pertencimento. Em um território historicamente marcado pela resistência negra, o filme resgata o legado dos quilombos na Baixada, desmistificando narrativas únicas e evidenciando a riqueza cultural, social e política dessas comunidades. Gravado em 2024 no Quilombo de Bongaba, Tem um Quilombo no Quintal de Casa é dirigido por Rute Sant'Anna, com Bárbara Martins na câmera, Larissa Carvalho no som e Mirella Souza na produção. Contemplado por Lei Paulo Gustavo, o filme nasce do olhar de quatro mulheres da Baixada Fluminense e convida o espectador a enxergar os quilombos não apenas como parte do passado, mas como territórios vivos, que avançam mudando o presente e construindo o futuro.
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